Sem medo de dizer não
Um dos grandes complicadores de todo tipo de relacionamento humano é exatamente o medo de dizer não. Para ser mais preciso, quem sabe, tenhamos de fato um medo de dizer a verdade ou aquilo que sentimos.
Tenho observado muito o comportamento das pessoas, sobretudo em reuniões. Este cenário ideal da capacidade do ser humano colocar em prática o duelo entre o individual e o coletivo, entre a sua auto-imagem e o modo como os outros o observam. Penso que o “inventor” das reuniões devia ser uma pessoa muito sádica e com um espirito de humor negro incomuns.
Um resgate da naturalidade das relações seria tremendamente bem aceito por todos. A eliminação de reuniões infrutíferas e sem resultados também.
Por outro lado, inconscientemente, desenvolvemos determinados mecanismos de relacionamentos que impedem a naturalidade. Desta maneira, se você estiver mesmo com vontade de ser claro, assertivo, comunicar-se diretamente e obter resultados, há alguns passos básicos a serem dados. Evidentemente que cada um deles é mais adequado a cada situação, mas também existem as situações onde mais de um ou até todos os passos deverão ser utilizados. Abaixo estão os passos e alguns comentários.
- Repetição: imagine um gerente de vendas explicando a seu grupo de vendedores que eles devem vender mais. As explicações do grupo de vendedores são sempre as mesmas: “nossos preços são os maiores”, “a concorrência está mais agressiva nesta região” ou “os clientes querem produtos diferentes”. O gerente deve agir como se fosse um disco arranhado e repetir incansavelmente: “vocês devem vender mais e essas explicações são evasivas”. Desta maneira acabará ganhando pela insistência ou pelo cansaço. O grupo de vendedores perceberá que deverá buscar as verdadeiras causas do problema e apresentar soluções viáveis para o crescimento da empresa;
- Jamais negar uma crítica: a primeira reação que tomamos quando uma pessoa nos critica é nos colocar em defesa e buscar desculpas que poderão ser verdadeiras ou esfarrapadas. O ciclo vicioso e sem resultados conclui-se com a atitude do criticador não aceitando as desculpas. O cenário desta conversa está mais para hospício que para uma empresa. Agora pense se a pessoa dissesse o seguinte ao receber a crítica: “tenho pensado exatamente neste ponto que você está criticando …” , “talvez eu não tenha dado muita importância para este fato, mas já estou revendo meu ponto de vista …” ou “sua crítica é bastante procedente, a partir de agora irei agir de modo diferente”. O criticador simplesmente cai de queixo, uma vez que no seu estoque de lembranças não existe nenhuma cena parecida com esta. Muito provavelmente ele irá até amenizar a crítica pois sua ira foi toda quebrada pela atitude incomum do interlocutor;
- Jamais negar um erro: bastante comum é a atitude das pessoas em negar que erraram. Sobretudo se o erro for muito grande. Antes de mais nada, é preciso dizer que é somente errando que se aprende e que crescemos rumo à maturidade. Também só cometem grandes erros as pessoas que possuem grandes responsabilidades. Um office-boy jamais poderá ser responsabilizado pela falência de uma empresa. Mas o gerente financeiro, comercial ou de pessoas sim. Portanto, quando alguém nos apontar um erro deveríamos agradecer pela ajuda prestada rumo ao nosso crescimento pessoal. Responder algo como “sem dúvida eu errei e agradeço a você pela franqueza em me dizer a verdade” ou “esse erro é de minha inteira responsabilidade e já tomei providências para que não ocorra novamente”;
- Responder com uma contra-pergunta: em geral as pessoas ficam iradas com pequenas coisas que realizamos. Há de fato uma questão mais complexa no contexto destas picuinhas empresariais. O verdadeiro foco é um relacionamento estremecido por posturas autoritárias e arrogantes das pessoas que, de um modo ou de outro, acabam magoando e ferindo fundo as outras. Um fato curioso observei outro dia numa empresa. Pela manhã o gerente financeiro estava lendo um jornal para atualizar alguns dados financeiros no sistema. Neste momento passa o presidente da empresa e diz: “deste modo iremos ter dificuldades, porque invés de trabalhar você está lendo jornal”. Uma contra-pergunta poderia ser: “o que há de errado em ler jornal uma vez que a empresa necessita das informações nele contidas ?”. O ideal é realizarmos contra-perguntas até chegar no foco, isto é, a caverna obscura dos relacionamentos humanos;
- Veracidade de sentimentos e de conhecimento: esse passo é tão difícil de ser dado pelas pessoas quanto uma tartaruga subir pelas paredes. Humildade em geral não é um forte no ser humano. Admitir para outrém que não sabemos a respeito de um assunto seja talvez tão violento quanto lutar com o campeão de Jiu-Jitsu. Mais impossível de acontecer é nossa capacidade de demonstrar o que sentimos. Se o primeiro poderia ser comparado à dificuldade da tartaruga subir pelas paredes, o segundo seria se a mesma tartaruga após subir a parede ainda virasse cambalhotas ! Se as pessoas dissessem algo como: “desconheço esse detalhe do produto, irei pesquisar e dar mais informações a você na próxima visita”, “fiquei magoado com sua atitude autoritária na última reunião…” ou “não entendo nada de vendas do produto A e muito menos sobre seu mercado”;
- Contrato psicológico: vem a ser um compromisso viável entre as duas partes de modo bastante informal e eficaz entre as pessoas envolvidas num processo. Quanto mais as “cláusulas” estabelecidas forem cumpridas à risca, mais confiança e consistência estará sendo construída no relacionamento. Deverá existir muita harmonia e lucidez para os primeiros contratos. Tolerância é a palavra-chave para obtermos sucesso nesta empreitada. O contrato psicológico é apenas um símbolo eficiente e que poderá assegurar que as partes querem na verdade crescer, aprender, mudar suas atitudes, enfim, voltarem-se à obtenção de resultados.
O leitor deverá, ainda, desvencilhar-se do pecado original que provocou o confusão nos relacionamentos humanos: o medo de dizer não. Essa palavra quando utilizada parece não compreendida pelo ouvinte e este passa a circundar a resposta negativa. Nosso sucesso será em colocá-la com bastante naturalidade e precisão para o interlocutor. No momento em que iniciar o processo de pronunciar o não, deveremos utilizar um dos passos acima descritos, dependendo da situação em questão.
Coloque em prática essas dicas e viva de uma maneira mais saudável nos seus relacionamentos interpessoais.
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