A dificuldade financeira das empresas na pós-crise

Os últimos dados parecem demonstrar que o pior da crise já passou. Todavia, se algo de concreto que esta crise nos ensinou é que os modelos preditivos estão sob um olhar mais crítico e ácido de todos. Há um sábio provérbio que diz: não há bem que sempre dure, nem mal que muito ature.

O fato é que o mundo não acabou e a crise não perdurou por um longo prazo, como alguns previam. Na mesma linha de raciocínio, o cenário presente é apenas um ponto frágil de uma linha de tendência. Creio ser natural que mais pontos venham a se somar a este para se consolidar uma trajetória mais robusta.

Neste cenário, surge até mesmo a figura patética de Alan Greenspan, ex-todo-poderoso guru das mais altas instâncias econômicas, que à moda de Nouriel Roubini, pontificou: outras crises voltarão a acontecer. Afirmação tão genérica de Greenspan de que no futuro a coisa poderá piorar segue em linha com Roubini. Restam saber a data, a hora, o local e o agente causador. Ainda bem que no mundo existem Greenspan e Roubini para nos socorrer e alertar.

Por outro lado, segue a árdua tarefa de reconstruir as finanças das empresas. Abaladas com quedas expressivas no volume de vendas, premidas pela alta do dólar que elevou custos de matérias-primas e o descontrole das dívidas em moeda estrangeira, e ainda surpreendidas com o súbito corte ou restrição do crédito, muitas empresas atravessam momentos delicados em relação à sua liquidez. Se eu fosse Greenspan ou Roubini, poderia até mesmo me arvorar a dizer que empresas não resistirão a esse cenário e quebrarão. Mas, como exposto, sou avesso a afirmações vagas, prefiro uma boa análise da situação reinante e proposição de correções de rumo à elaboração de frases de efeito ou visões bombásticas.

Objetivamente, há o dado da ACSP que acompanha a evolução do número de falências (requeridas e decretadas) no Estado de São Paulo. No período de janeiro a agosto de 2008 contra janeiro a agosto de 2009, houve um aumento expressivo nas falências requeridas: 345 contra 307, ou seja, 12,38% em termos relativos. Muito embora o comércio lidere em número de pedidos, o setor de serviços é que teve a maior expansão, com 18,09%, seguido da indústria com 14,29%.

Paradoxalmente, o número de falências decretadas mostra uma queda de 36,20% em igual período, talvez fruto da chamada Lei 11.101, conhecida por Lei de Recuperação Judicial. Todavia não é o objetivo tentar imaginar as eventuais causas e sim, a partir do cenário exibido, propor alguns caminhos possíveis para as empresas que estão ou bem já no conjunto das que estão em processo de recuperação judicial ou bem podem estar a caminho do mesmo. Até mesmo as empresas com excelente saúde financeira deveriam entender o contexto para melhorar de modo contínuo seus indicadores.

O setor financeiro está mais exigente na análise do crédito e, principalmente, na exigência de garantias. E surgem novos jargões: refinanciamento, reperfilamento, reestrutura e renegociação de dívidas. Ademais, e este de fato é um fator positivo, os bancos passarão a exigir garantias específicas, os chamados covenants. Os tradicionais instrumentos de garantia (como hipotecas, aval, alienação fiduciária) têm se mostrado, em muitos casos, inadequados diante do problema da recuperação do crédito. Custas judiciais, demora no julgamento, aliadas com a própria desvalorização do bem e a dificuldade seguinte em transformá-lo em dinheiro, fizeram com que a área de crédito criasse um conjunto mínimo de regras, chamadas covenants, que na prática limitarão a possibilidade de a empresa contrair novos financiamentos e forçarão a mesma a realizar uma gestão focada na geração de caixa. Portanto, esta é a palavra de ordem: caixa. Vendas e lucros serão coadjuvantes no novo cenário, e o caixa torna-se o protagonista.

O empresário nacional, basicamente, sabe vender muito bem o que faz ou faz muito bem o que vende. Vender e produzir são, portanto, os verbos até aqui conjugados. O novo verbo será gerir, típico de organizações complexas. E só se produz caixa com conhecimento profundo das variáveis financeiras e com um planejamento construído com técnicas consolidadas. Assim, a gestão voltada para a geração de caixa será o maior objetivo a ser perseguido e o grande ensinamento desta crise.



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Comentários

4 Comentários para “A dificuldade financeira das empresas na pós-crise”
  1. Gabriela disse:

    Gostaria de uma explicação mais detalhada sobre o que será exigido das empresas com as novas oportunidades neste pós-crise.A dificuldade será conseguir fazer uma gestão focada na geração de caixa?como cita o texto.

  2. Adriano Gomes disse:

    Oi Gabriela, obrigado pela pergunta.
    Geração de caixa sempre deveria ser o foco das decisões empresariais invés de outras “idiossincrasias gerenciais” (leia-se: bobagens). Caixa sempre foi e será a grande determinante do sucesso de uma empresa. Qualquer outra métrica é perda de tempo.

  3. eder disse:

    bom dia tenho uma loja e estou passando por uma crise forte devo para fornecedores agiota e banco gostaria fazer ma consutoria como negociar as dividas usando o movimento da loja so tenho estoque naõ tenho mais capital de giro.

  4. Adriano Gomes disse:

    Eder, infelizmente vc se deu conta de negociar sem arma e munição. Resta pouco a ser feito. Qual o montante das dívidas ?

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