Crise da Bonança
O termo pode parecer um pouco estranho.
Estamos acostumados a ouvir falar do passivo a descoberto; que á a situação patrimonial de uma empresa que possui mais passivos (dívidas com terceiros) que o total de seu ativo. Em outras palavras, é uma situação muito delicada do ponto de vista financeiro, uma vez que raramente uma empresa nestas situações consegue reverter a situação.
Infelizmente, muitas tragédias empresariais aconteceram no Brasil ocasionadas, sempre, pelo passo número 1: a má gestão. Quem não se lembra da VARIG, Fazendas Reunidas Boi Gordo, Casa Centro, Mesbla, Mappin. Aliás, muito cuidado com algumas empresas da atualidade que têm excelente marca e péssima gestão financeira …
Mas, o que de fato está acontecendo com estas e com tantas outras empresas ? Por que o número de empresas com dificuldades financeiras está aumentando a cada instante ? Quais os principais motivos que levam as empresas para essa fronteira tão indesejável ?
Bem, um dos principais fatores que levam as empresas para situações desconfortáveis como essa é a crise da bonança. Por mais paradoxal que possa parecer, quando tudo “parece” estar bem numa empresa é um bom motivo para seus dirigentes não caírem na tolice de pensar que são deuses. Infelizmente, a vaidade fala mais alto…
Sustentados pela vaidade, proprietários, executivos e toda equipe de gestores, engolem pílulas de coragem que fazem com que eles simplesmente fiquem cegos e se atirem como pilotos-suicidas para as mais grotescas aventuras que uma empresa poderia enveredar.
Nada ocorre por obra do acaso. Principalmente as punições do mercado, posto que o dinheiro, como é largamente sabido, não admite desaforos.
E o que grande parte dos gestores tem feito com o dinheiro da empresa? Um verdadeiro arsenal de desaforos é lançado todos os dias contra o dinheiro da entidade chamada empresa. Vejamos alguns exemplos:
Vender por vender: este é, seguramente, o mais refinado exemplo de desaforo que o dinheiro não gosta de receber. Não se pensa em vender com lucro, tampouco em se vender para se posicionar. Apenas lampejos de glória de uma equipe de vendas que apenas, e tão somente, está pensando na comissão santa de todo dia;
Vender o que não tem: se o primeiro exemplo é digno de trono, esse é digno da coroa. Vender o que a empresa não tem é um dos desejos mais vorazes das equipes de venda que vejo nas empresas. Trata-se de um jogo bem definido, com o intuito de fazer com que a atenção seja encaminhada para a área comercial. Assim, ninguém poderá culpa-los posteriormente por não ter vendido, uma vez que pedidos foram trazidos. Apenas não foram entregues;
Vender o que se tem por um preço menor: para terminar de vestir o rei dos desaforos, coloquemos, agora, o manto. Frases como: “nosso concorrente vende a um preço menor”, ou “o cliente diz que tem a mesma mercadoria por 10%, 15%. 20% mais barato que a nossa”, denotam uma prática comum em se vestir com um manto real o verdadeiro absurdo em se cometer um desaforo contra o dinheiro da empresa;
Comprar em demasia, estocar sem necessidade: os três primeiros itens dizem respeito ao ato de vender. Este, em especial, é um dos maiores desaforos que as áreas de compras, PCP, produção e afins cometem contra o dinheiro. Friso que essa verdadeira mordomia serve apenas, e tão somente, para dar mais conforto e segurança para os bem-aventurados homens de suprimento;
Luxos pagos pelo cliente: toda empresa tem seus luxos. Desde a preguiça incontida de alguns iluminados colocados pela diretoria para “trabalhar”, até as mais extravagantes formas de poder que se quer imprimir nas empresas. Assim, cadeiras bonitas, canetas de marca, carros importados, enfim, toda forma de luxuria, é paga pelos clientes. Até quando isso vai perdurar ? Até o momento em que o cliente quiser. Vou dar um dado que é espantoso: a luxuria da diretoria de algumas empresas é, simplesmente, o maior custo fixo que elas têm. Classifique em sua empresa o montante gasto com “regalias da diretoria”. Você vai se espantar e, pasmem, os clientes também.
Mas, então, o que fazer ? Infelizmente, pouca coisa. Por um lado, a bonança cega; por outro, a vaidade nutre esse tumor.
A verdade é que somente as empresas com pessoas maduras o suficiente poderão prosperar. Maduras, significa, sobretudo, a capacidade de ouvir críticas e de perceberem que estão erradas.
E você, já está maduro o suficiente para ouvir críticas ?
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