Hora de Rever os Números
Poucos se lembrarão, mas o ex-presidente Fernando Henrique disse na ocasião da crise do apagão que tinha sido “pego de surpresa”. O atual presidente cunhou o inesquecível “eu não sabia”.
Por mais absurdo que possa parecer, tais frases podem ser repetidas em muitas empresas que não têm um sistema de informações gerenciais (SIG) apurado.
Existem basicamente dois grandes grupos de empresas neste segmento: aquelas que não têm nenhum tipo de informação e as que pensam que têm.
É muito comum encontrar empresas onde erros crassos são encontrados nos seus SIGs. Os principais são:
- falta de apoio dos dados para se transformarem em informações poderosas para a empresa nas decisões comerciais;
- mistura de conceitos de metodologias de custeio, criando um sistema híbrido e sem a menor consistência lógica da principal base de tomada de decisão, os custos;
- retrabalho e não aproveitamento dos dados já inseridos como forma de minimizar as tarefas futuras das pessoas;
- excesso de relatórios inúteis e escassez de relatórios que efetivamente são necessários e fundamentais para o negócio;
- carência de profissionais que ao mesmo tempo sejam competentes na área da informática e na gestão de empresas.
Com esse cenário à vista, é óbvio que muitos empresários irão repetir as frases de FHC e Lula.
Muitos pensarão: “eu não sei como é que minha empresa chegou nessa situação tão difícil, os relatórios não apontavam para essa situação” ou “meu sistema dizia que eu tinha lucro, mas a realidade mostrou-se diferente”.
Por isso, é que está na hora de rever os números fundamentais de sua empresa. Saber apenas e tão somente sobre o lucro é muito pouco. Se esse tal lucro estiver correto, ainda pode-se dizer que a informação tem alguma utilidade. O fato, todavia, é mais grave do que se imagina, uma vez que a grande maioria dos sistemas de custos está errada.
Tecnicamente falando, há uma mistura de conceitos de custeio direto e custeio por absorção, ou seja, é muito comum ratear custos fixos para o produto e, ao mesmo tempo, tentar o cálculo da margem de contribuição. Isso é impossível, uma vez que o conceito de margem de contribuição surgiu em 1936 para exatamente colocar fim nesta discussão que, pasmem, continua a criar uma confusão absurda até mesmo entre os especialistas e, sobretudo, entre os pseudo-especialistas, que se auto-intitulam pela alcunha de consultores financeiros.
A própria formação do preço de venda é feita de modo totalmente distorcida nas empresas e este fenômeno, aliado à conjuntura futura poderá conduzir a empresa para uma situação muito complicada. Senão, vejamos:
- O Banco Central aumentará de forma lenta e gradual a taxa básica da economia (Selic). Se, por um lado, o aumento tenta frear a chamada inflação de demanda, por outro, alimenta a inflação de custos. Isso porque um dos componentes do custo das empresas é o custo financeiro. Logo, se esse aumenta, as margens diminuem e os preços tenderão a aumentar;
- Por outro lado, ano de eleição e com uma taxa anualizada do PIB sendo similar à China é preocupante. Enquanto a China tem seu crescimento sustentado por uma taxa de investimento de 42% do PIB, nós aqui investimos 18%. A verdade é que novamente teremos um voo de galinha e 2011 a queda da atividade será muito acentuada. Crescimento econômico movido pela confiança e ao estímulo da população para o consumo regado à crédito é uma combinação explosiva.
O aumento da Selic, também traz outro fantasma. Além de aumentar o custo financeiro das empresas, também eleva a participação da dívida no PIB. O simples fenômeno do aumento ou da diminuição torna-se irrelevante ao nos depararmos com o mais complexo dos problemas que normalmente não se discute: a geração de renda para tornar o balanço de pagamentos auto-sustentável.
Da mesma forma que o Governo deve (ou deveria) ter pessoas competentes para avaliar se o país está gerando renda e tornando-se mais rico, os empresários devem assumir o seu verdadeiro papel que é de tornar a empresa cada vez mais saudável financeiramente, e isso só ocorrerá quando a renda gerada nas operações (EBITDA) for maior que a variação da necessidade de capital de giro (ΔNCG).
Enfim, cabe a cada um parar, pensar e responder se preferem assumir que a empresa tem necessidade relatórios gerenciais financeiros ou chegar num belo momento da sua vida e perceber que foi pego de surpresa pelo destino.
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