Bem-vindo à nova era dos investimentos
Com a queda necessária, até mesmo tardia, da taxa básica de juros que regula o mercado brasileiro (Selic), um novo cenário se descortina para investidores e gestores de investimentos. Na última reunião, o Copom decidiu fixar em 8,75% a Selic para os próximos 45 dias. Desde janeiro o corte acumulado é de 5% e, segundo expectativas do mercado, expectativas essas que sempre determinam as decisões do Copom, não há mais espaço para cortes substanciais nas três últimas reuniões que restam ao Comitê de Política Monetária.
Durante anos, o Brasil sempre foi o país cuja taxa de juros real ganhava de qualquer outra nação. Com tal deformidade, que não tinha amparo diante das condições macroeconômicas, havia uma espécie de “co-morbidade financeira”, ou seja, a coexistência de deficiências em investidores e gestores. Ambos tinham basicamente que fitar a taxa de juros de um fundo ou papel colocado no mercado financeiro e projetar possíveis cenários. Dependendo da bola de cristal de cada um, posições eram armadas e o cronômetro era disparado.
A caderneta de poupança, uma espécie de patinho feio do mundo dos investimentos, transforma-se na grande vedete com artigos, análises e toda sorte de luz irradiando sobre sua aura. Creio que já está bem claro o porquê de a poupança estar atraindo os investidores de fundo: isenção de imposto de renda e taxa de administração igual a zero.
O novo mundo dos investimentos no Brasil tem um pano de fundo que, acredito, não tem sido devidamente explorado: a qualificação dos profissionais do mercado financeiro e a educação dos investidores. Este é o grande desafio que começa a entrar na ordem do dia e por isso o convite: bem-vindo ao mundo dos investimentos.
Investimentos não podem ser tratados como uma mera análise simplória de comparação de taxa de juros. Em linhas gerais, esse era o trabalho corriqueiro dos gerentes das instituições financeiras. Houve um movimento interessante, porém ainda bastante tímido e insuficiente, no sentido de qualificar os profissionais que se dedicam a orientar investidores. Com tal cenário de queda acentuada da Selic, conteúdos e enfoques deverão ser revistos para que esses profissionais orientem de forma cirúrgica cada investidor.
As instituições deverão entender que não poderão estabelecer seus procedimentos como se o processo fosse uma linha de produção. Trata-se de alfaiataria fina e não de prêt-à-porter ! Obviamente, muitas instituições não compreenderão de imediato essa transformação e ainda permanecerão na zona de conforto com sua vasta capilaridade e carteira vasta de clientes. Esse evento irá permanecer enquanto a outra ponta, o investidor, não calibrar seus conhecimentos diante dessa nova e importante realidade.
A “co-morbidade financeira” começa a ser tratada e, de forma similar à co-morbidade humana, o mais inteligente é tratar ambas as doenças, exceto, é claro, se um determinado medicamento não colidir com o outro. Rigorosamente, no campo financeiro, poderíamos até mesmo tratar como vacinas, na melhor forma de profilaxia. Para os gestores, cabe a vacina chamada “qualificação profissional”. O objetivo é calibrar as deficiências de conhecimento e, principalmente, atitudinais desses profissionais. Se devidamente inoculada, a qualificação profissional conseguirá transformar profundamente essas pessoas, colocando-as em um patamar que nem sequer eles haviam imaginado e tampouco desejado.
Do outro lado do balcão, a vacina identificada por “educação financeira” tem como fim maior levar todas as técnicas, análises, teses e práticas financeiras. De posse desse patrimônio, que é indelével, os investidores farão antecipadamente a sua lição de casa baseando-se nos mesmos signos dos gestores. Há uniformidade da linguagem e, com ela, novas construções serão possíveis, porém sem impaciência de um lado e a resignação do outro.
Esse cenário começa a ser desmontado. Eis uma bela contribuição que a crise financeira trouxe: a ruptura do modelo que exige que um pé fique pisando no terreno do controle inflacionário e o outro pé pise de acordo com as necessidades de colocação de títulos públicos do Estado.
Assim, vejo com admiração, entusiasmo e otimismo essa nova era. E todos aqueles que forem partidários da educação, ética, transparência nas relações e, principalmente, do conhecimento terão a mesma leitura. Como professor de finanças, sou grato por mostrar aos futuros profissionais que as teorias estudadas em sala de aula serão notadas com mais ênfase agora.
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