Dormindo com o Inimigo
Quem já não ouviu uma estória de arrepiar de algum amigo ou conhecido onde o mesmo relata uma traição, roubo ou meramente um descaso de uma pessoa que este julgava ser a mais fiel e venerada?
É comum nas empresas ouvir que o tio do fulano de tal cometeu um deslize daqueles. Que o próprio irmão, em muitos casos, passou a mão no dinheiro da empresa e montou uma concorrente em frente.
Será mesmo que não se pode confiar em mais ninguém? Muitos perguntam.
O fato é que aquele velho ditado torna-se verdadeiro neste cenário: “jamais me decepcionei com quem fui mal”. Porém, o que na verdade deve ser feito?
As empresas em crescimento têm uma mania muito impregnada em seu histórico de vida: confiança. Contratam-se pessoas muito menos pelas qualidades pessoais, ou até mesmos profissionais, e muito mais por uma questão de confiança.
Invés de se colocar instrumentos que possibilitem um controle das operações e até mesmo do desempenho das pessoas frente aos desafios que a empresa necessita em um dado momento, os dirigentes preferem se cercar de pessoas de seu conhecimento.
Naturalmente isso acarreta dois problemas imediatos, como:
1. Falta de arejamento de idéias: uma vez que as pessoas contratadas terão um perfil muito afinado com aqueles que as contrataram. O mundo das idéias dentro da organização não se expande e o status quo é o senhor absoluto no clima interno. Mudanças sempre serão consideradas um fantasma para todos. Ninguém consegue perceber alguma oportunidade que os novos ventos conduzem. Todos só veem tempestades e furacões devastadores. O jeito, então, é passar a culpa para outros, uma vez que os pertencentes ao clã não podem ser maculados pela culpa. Isto pode parecer loucura, mas, na prática é o que ocorre no dia a dia de muitas empresas. Quando algum incauto se atreve a apontar alguma falha no rumo ele é execrado e sua pena é o corte;
2. Dissimulação: existem muitos dissimulados nas empresas. Pessoas que além de negativas espiritualmente, fazem a política do “vai-e-vem” ou do “leva-e-traz”. Participam de reuniões muito mais na condição de espiões da cúpula para delatar aqueles que pensam de modo diferente. No trato pessoal são afáveis e, normalmente, concordam com a sua idéia a ponto de se empolgarem emocionalmente. Quando alguém desconfia e comenta sobre o tal dissimulado, rapidamente ouve uma série de razões para mudar de ideia. Então, eles permanecem.
O fato é que os dirigentes temem o crescimento. Não se espantem! Eu não errei ao digitar, tampouco a linha de pensamento está equivocada. Quando a empresa cresce de forma contínua, há uma possibilidade de “perda de poder”. E este é o cerne da questão. Tornamo-nos um aglomerado de empresas nanicas (em termos mundiais), cercados pelo chamado primeiro setor (Governo), que historicamente não propicia um ambiente para o crescimento e desenvolvimento das empresas.
Infelizmente nós não conseguimos aprender com a história. Esquecemo-nos que os reformistas sempre pensaram de modo antagônico àquilo que se supunha ser o estado da arte de uma teoria ou mesmo do status quo de um modelo social ou filosófico. Nossa condição subserviente de ex-colonizados talvez ainda impere em nosso inconsciente coletivo.
Antes o que nos encantava eram os ventos europeus. Hoje, somos aficionados pelo arsenal de “novidades” patrocinadas, principalmente, pelos americanos. Basta um cidadão ser desta nacionalidade que suas palavras maravilham as mentes de nossa elite empresarial.
Enquanto isso, trabalhos com grau de qualidade intelectual superior e focado em nossa realidade estão literalmente esquecidos.
Todo esse cenário me lembra aquele filme onde o melhor amigo do cidadão dormia com sua esposa; enfim, dormia com seu futuro inimigo. Será que todos aqueles bajuladores de ego que cercam os tomadores de decisão nas empresas não fazem exatamente este papel? Seriam eles verdadeiros incendiários que adoram ver o circo pegar fogo?
Esta resposta somente cada empresário poderá responder. Para tanto, é necessário usar a razão, ser muito sereno e queimar todo o estoque de vaidade. Você consegue?
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