A Hegemonia: Uma Conquista da Sociedade Civil e suas Ramificações nas Organizações via Responsabilidade Social

Introdução

Antes de iniciar o texto em si, acredita-se que se façam oportunas algumas considerações iniciais. Muito embora o artigo tenha como objetivo discutir o conceito e as antinomias (contradições entre leis e princípios) do termo hegemonia da obra de Antonio Gramsci (1891-1936)[i], é importante salientar que Gramsci foi um dos fundadores do Partido Comunista Italiano (1921) e que logo após a derrota dos movimentos dos conselhos de fábrica há a ascensão do fascismo com  Mussolini no poder. Nessas condições, Gramsci passou boa parte da vida preso (1926 à 1936). Foi libertado e morreu em seguida. Portanto, seus cadernos (onde de fato Gramsci escreveu suas idéias) passavam por uma rígida censura e, para tentar driblá-la, a alternativa era escrever de forma metafórica. O próprio Anderson revela (2002:16): “É necessário dizer, para alertar contra toda leitura fácil ou condescendente de Gramsci: ele é ainda para nós um autor em grande parte desconhecido.”

Um bom exemplo de um desses termos é uma das chaves para se chegar à hegemonia: sociedade civil. Parece que é um eufemismo para caracterizar a burguesia. Aliás, apenas para aguçar o debate, na legislação brasileira, inclusive, sociedade civil é um tipo específico de empresas, as prestadoras de serviço: são as S/C LTDA. O termo que exprime sociedade civil em alemão é bürgergeselschaft e as palavras civil e burguês são absolutamente idênticas: bürgerlich. Mas por que o artigo remete para a Alemanha? Por uma razão mais ou menos óbvia. Foi o filósofo alemão Hegel (1974) que tentou em primeiro lugar tentar explicar as relações do Estado com a chamada sociedade civil por meio de um processo dialético. Segundo o filósofo, a sociedade civil é a esfera onde ocorrem os dois contratos básicos: social e político. Na sociedade civil impera a liberdade subjetiva (ligada aos sentimentos, legitimidades, valores e toda sorte de atribuições).  O Estado entra exatamente de forma complementar no processo atribuindo a liberdade objetiva (garante que o contrato será cumprido via responsabilidade dos agentes). Sociedade civil é, portanto, segundo a visão hegeliana, ao mesmo tempo antítese e síntese da relação do Estado com os indivíduos remetendo a um sistema de produção onde cada um buscará seus interesses. Daí a luta incessante desta esfera pelo tema liberdade. Paradoxalmente as conseqüências políticas foram ambivalentes: tanto desembocaram no liberalismo com as três revoluções burguesas (inglesa, francesa e americana), como reforçaram um Estado forte e intervencionista como o alemão e inglês do século XIX e o americano no século XX.

Mas as empresas que inicialmente queriam um Estado forte para impulsioná-las, pouco a pouco, foram pressionando exatamente para o que se denomina atualmente de Estado-Mínimo. Uma das conseqüências maléficas do Estado-Mínimo é o aprofundamento da tragédia social, em especial vista nos países mais pobres como o Brasil. Repentinamente, surge, então, uma voz que ecoa das cordas vocais empresariais que propõe que as empresas devem ter uma nova ética, um novo compromisso com a sociedade, enfim, todo um novo contexto que se denomina de responsabilidade social. Uma opinião neste sentido foi identificada em Pinto (2002:15):

“Apesar de muitos países estarem evoluindo para modelos de Estado mínimo, é impossível não reconhecer que os governos, individualmente, ainda têm tarefas hercúleas a cumprir e enfrentarão grandes dificuldades para levar a cabo ações na área social…”

Pelo que o autor retrata parece que, segundo sua visão, Estado-Mínimo é uma evolução em relação ao Estado do Bem-Estar Social, por exemplo; todavia, contrariamente, afirma a necessidade do mesmo Estado cumprir sua missão social. No mínimo a proposta e contraditória ou os aspectos histórico-políticos que permeiam cada tipo de Estado passaram desapercebidos pelo autor. Certas ou não, coerentes ou contraditórias, o fato é que cada vez mais os temas ligados à responsabilidade social começam a tomar a agenda oficial das organizações. Mas, afinal, o que motiva tais empresas a se preocuparem com a responsabilidade social? Esta é a pergunta central que este artigo vai procurar responder. Mais que uma resposta peremptória, se buscará esgarçar algumas possibilidades na conclusão.

Ultimamente tem sido comum encontrar empresas que se dizem preocupadas com os aspectos sociais. Muitas delas tem criado, inclusive, institutos e todo tipo de agremiações com um objetivo claro e simples: passar a mensagem para a opinião pública que a empresa não é simplesmente um conjunto de pessoas interessadas em extrair o lucro pelas vias tradicionais de comercialização de seus produtos e serviços. Elas, agora, tentam passar a mensagem de uma empresa que transcendeu os limites da organização puramente lucrativa e preocupa-se com o bem-estar da sociedade. Segundo Villela (1999:2):

“O termo responsabilidade social nada mais é que o comprometimento do empresário com a adoção de um padrão ético de comportamento, contribuindo para o desenvolvimento econômico, uma estratégia que não só melhora a qualidade de vida de seus funcionários, mas a multiplica por meio de suas famílias, da comunidade, da sociedade. É a empresa atuando como agente social no processo de desenvolvimento”.



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