2010: tendências, riscos e oportunidades

O ano de 2009 ficará gravado na história econômica de forma indelével. Até meados do ano 2008, a maior parte dos economistas e analistas acreditava e projetava o paraíso na Terra. Mesmo com claras evidências de término de um ciclo econômico pujante, sustentado pelo consumo norte-americano e pela produção em massa chinesa (shopping center e fábrica do mundo, respectivamente), os grandes bancos de investimento de Wall Street propunham um crescimento sem fim. O falido Lehman Brothers estimava o barril de petróleo em US$ 200 para final de 2008. Sua luneta de fato estava muito embaçada: o barril fechou em US$ 35,58 na última cotação da NYMEX (New York Mercantile Exchange) em 2008.

Todavia, o último trimestre de 2008 serviu para embaralhar todas as cartas desse grande jogo. A pior conseqüência do verdadeiro desastre econômico tem duas grandes vertentes. A primeira delas é a forte desaceleração da economia provocada pelo esgotamento do crédito para capital de giro das empresas e consumo da população. A segunda é a instalação de uma crise total de confiança dos agentes econômicos aliada com um clima de incerteza sobre o futuro. Note-se que o termo aqui é incerteza e não risco. Risco é a probabilidade de se perder determinado recurso em um dado período de tempo. Incerteza é a falta total de parâmetros para se avaliar um dado no futuro. E o principal parâmetro que foi prejudicado foi o preço dos ativos, pois, à época, não havia mais uma boa referência de preços na economia e esse é o principal motivo do comportamento errático dos mercados.

Esta crise é o segundo ato do que aconteceu em 2001, que, por sua vez, foi apenas a ponta do iceberg dos fenômenos de descrença nos relatórios financeiros das companhias. Poucos se recordam dos escândalos das empresas Enron, WorldCom Xerox, Tyco e Parmalat. E sem contar que simplesmente a maior empresa de auditoria até então encerrou suas atividades. Naquela época a causa da crise foi a fraude contábil dos relatórios, ainda que auditados. Surgiram práticas mais sólidas de governança corporativa, a Lei conhecida por SOX e o COSO Report na tentativa de garantir ao investidor lisura e confiabilidade nas informações prestadas. Foi um avanço extraordinário. Todavia, o sistema financeiro, sobremaneira o mercado de derivativos, ainda não possui um conjunto de práticas e regras, e nem arcabouço legal, para controlá-lo. Eis o desafio que se coloca à frente para ser tratado em 2010. Creio que sairemos desta crise com um saldo bastante positivo no que se refere à regulamentação deste setor. Assim, colocaria este tema na agenda de discussões em 2010.

Regulamentação, controle, evidenciação e transparência. São elementos indispensáveis para retornar a confiança e se restabelecer o crédito. Ou seja, as empresas que não trilharem este caminho terão dificuldades na novação do crédito e na elevação de limites. E o contrário é verdadeiro: as que apostarem no sentido inverso terão sanções e aumento no custo do dinheiro. É um longo caminho a ser percorrido para que uma empresa possa se apresentar com a chancela de transparente no mercado de crédito. Porém, vale à pena. Os benefícios são enormes e há um ganho substancial frente à concorrência. Da mesma forma, este item deveria ser pauta principal das empresas que pretendam trilhar um 2010 de forma bem distinta e com possibilidade real de reestruturar suas dívidas e obter recursos para expansão ou até mesmo enveredar para a aquisição de concorrentes.

Sobre o mercado de capitais, devemos recordar que a BOVESPA obteve um ganho extraordinário, porém ainda abaixo do pico de 73.516 pontos (20/05/08). Naquela época alguns analistas apontavam para um fechamento na casa dos 80.000 no final de dezembro. Obviamente, ninguém, até o pior dos pessimistas, poderia acreditar que tal índice despencasse para a casa dos 29.435 pontos (27/10/08) e fechamento real em 37.550 no final de 2008. Ou seja, houve uma perda do pico até o fechamento de 48,92% e de ponta a ponta (da maior alta para a maior baixa) de 59,96% ! O valor das companhias abertas que em janeiro de 2008 era de US$ 923 bilhões caiu para US$ 456 bilhões em novembro. Desvalorização de 50,60% que tem dois componentes: a queda do valor das empresas listadas e a alta do dólar. Claro que perdas profundas como estas só poderão ser encontradas na história na Grande Depressão dos anos 30. Para quem apostava em uma “marolinha” se deu muito mal. O índice Dow Jones despencou 33,8% em 2008. Note, pela tabela abaixo, que tal queda só poderá ser encontrada no período citado.

1929 -8,30%

1930 -25,12%

1931 -43,84%

1932 -8,64%

Variação da NYSE

Fonte: www.damodaran.com

E como coincidência não existe mesmo, adivinhe qual a projeção para o fechamento do IBOVESPA para 2010 ? Isso mesmo, 80.000 pontos. E esperar para ver se as previsões se confirmarão.

O fato é que todas as projeções e análises estão comprometidas. Os analistas foram torpedeados pela realidade dos fatos. O principal estrago causado por esta crise foi a precificação dos ativos. Ninguém hoje pode ter uma visão ou linha de tendência confiável. Ou seja, tudo pode acontecer. E neste cenário grandes oportunidades surgem para os verdadeiros empreendedores. Mas haja sangue frio e audácia para enfrentar e vencer em 2010. Será o ano da gestão, da razão e das boas práticas de administração. Creio que esta será a grande tendência para 2010: o foco na gestão e boas práticas.

2010 será um ano diferente, sobretudo no Brasil. Há eleições e Copa do Mundo. Ou seja, menos dias úteis de fato para trabalhar. E tal dado não pode ser esquecido no planejamento das empresas. Como dito acima, as linhas de tendência estão se configurando ainda e o primeiro trimestre de 2010 poderá apontar três caminhos, a saber:

1) O mais trágico seria mostrar uma linha reversa, com viés de baixa para os principais indicadores da Economia. Este seria o pior cenário.

2) O mais provável seria de um ponto de inflexão, com dados exibindo uma tendência de recuperação de preços e da confiança do consumidor. Este cenário está umbilicalmente ligado à recuperação econômica americana, japonesa e europeia.

3) E, finalmente, um terceiro cenário mostrando dados de forte reversão do pessimismo e aceleração na recuperação dos preços. Dos três cenários o segundo é o mais provável de ocorrer. O terceiro, infelizmente, não há muita chance de ocorrência.

Para que ele ocorra, as empresas têm sua parcela para confirmá-lo. Investir em projetos de transparência das informações para os diversos stakeholders. A palavra-chave será confiança. Sem confiança não se tem crédito e sem crédito, não há crescimento. Qualquer projeto sério no sentido de melhorar a via de informações financeiras, com controles internos fortes, informações financeiras fidedignas e gestão orientada para a criação de valor leva, no mínimo, 12 meses. Qualquer um que diga o contrário já começa com a mancha da desconfiança. Assim, para a retomada do ciclo que vinha ocorrendo, ajustes serão necessários. O próximo ciclo será muito mais sólido. Essa é a história do capitalismo; uma eterna corrida de gato e rato.



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