Empresas com “e-miopia”

Nova era, nova economia, e-business, e-commerce, e-banking, CIO (Chief Information Officer), CTO (Chief Technology Officer).

Conforme o tema internet foi tomando espaço na imprensa, o festival de neologismos foi crescendo na mesma proporção. Talvez tenha crescido muito mais que o normal.

O fato é que a febre do dinheiro fácil para a criação das empresas virtuais teve seu fim trágico há mais de uma década, muito embora sempre encontremos algum desavisado. O fim se deu pelo erro crasso de confundir negócio com mídia. A internet é de fato uma mídia (veículo de comunicação) como o rádio, o jornal, a TV, a revista, etc. A internet somente pode ser um negócio quando o assunto se prender à transmissão das informações entre duas pontas, tal como os empresários de TV, rádio ou jornal sempre fizeram.

Muitas pessoas pensaram que o ganho de dinheiro fácil na tal da nova economia seria muito simples. A fórmula consistia em criar uma palavra-chave (evidentemente em inglês) e tentar convencer via propaganda que se tratava de algo muito pensado, planejado e estudado anos a fio por pessoas em todo o mundo.

Surgiram os “e-visionários”! Como os visionários da velha economia, estes também dizem ter uma fórmula milagreira e infalível. Os mais ousados juravam que tinham um modelo de negócio inovador. Obviamente, tirante o modismo que imperava na época, jamais passariam de planos de negócios universitários (muita imaginação e pouco suor).

O que mais me fascina é que pessoas muito preparadas foram literalmente envolvidas pelos business plan destes visionários. Analistas de bancos de investimentos, de venture capital ou de poderosos grupos acreditaram em projeções de faturamento assim

  • Janeiro $ 10.000
  • Fevereiro $ 30.000
  • Março $ 130.000
  • Abril $ 500.000
  • Maio $ 700.000
  • Junho $ 1.000.000

Qualquer analista razoavelmente crítico sabe que a projeção acima pode ter duas soluções (i) não tem nada de concreto e é uma tremenda cascata ou (ii) se verdadeira for possui um risco tão grande que seria impossível convencer qualquer investidor a colocar R$ 1,00 em um projeto com tais características.

Parece que a febre do dinheiro fácil mais uma vez falou mais alto que a razão. As fundamentações eram tão fúteis e sem sentido que uma leitura retrospectiva seria um bom caso para um show de humorismo corporativo.

A história se encarregou de provar que os e-visionários estavam desfocados e com uma avançada “e-miopia” em marketing. Assim como Levit na década de 60 definiu a miopia em marketing que as empresas estavam inseridas, hoje se pode verificar perfeitamente que as chamadas “ponto.com” também realizaram o mesmo movimento. Felizmente, a lógica prevaleceu!

Confundir mídia com negócio é tão ridículo como o famoso exemplo de Levit do fabricante de chicotes para carruagem em pleno desenvolvimento da indústria automobilística.

Todavia ninguém perguntou:

o Qual a consistência das projeções?

o Qual o método empregado?

o Qual a diferença de aplicar $ 1,00 na internet e $ 1,00 na revista ou na TV?

o Qual o retorno monetário para cada $ 1,00 aplicado e em quanto tempo tal retorno se dará?

o As pessoas querem ver banners nas páginas ou querem mesmo é ler informações?

A verdade é que um número enorme de empresas “ponto.com” foi à falência por não realizar o mínimo, o básico e o essencial do marketing levar ou entregar aos clientes o que eles querem.

Mais uma vez o erro clássico se repetiu. Em primeiro lugar, presumiu-se que se conheciam os clientes de forma bastante firme e clara. Em segundo, decorrente do primeiro, foram produzidos bens ou serviços para serem entregues aos tais clientes.

O aprendizado é o mesmo de 40 anos atrás. Enquanto não se conhecer de fato quem é o cliente, o que ele quer e como gostaria que o tal bem lhe seja entregue, de nada servirá termos chiques (em língua inglesa ou eslava) como business-to-business ou supply chain.

Eis que surge, em nossa aldeia, os “e-publicitários”, que após não entenderem absolutamente nada do que foi escrito acima, jogam verdadeiras fórmulas milagreiras de divulgação via web. Novamente, não se percebe o movimento maravilhoso provocado por esta mídia. O problema hoje consiste em ser lido, ser visto e não há mais o problema do mundo sólido (alusão à Bauman) que era diametralmente oposto, ou seja, onde escrever, onde colocar-se. Em suma, hoje o problema não é encontrar um escritor (qualquer um se arvora no direito de escrever … até pessoas que nunca leram, escrevem !) e sim um leitor.

Será que alguém ainda tem dúvida que há muita diferença entre estas propostas e as enfadonhas e mal-sucedidas mala-diretas da velha economia?



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